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É menino ou menina?
"Esta é, de facto, a primeira pergunta que se faz, quando se toma conhecimento do nascimento de uma criança, como se o seu sexo nos permitisse organizar todas as percepções e avaliações do seu comportamento, daí em diante." Assim se inicia a dissertação de doutoramento em Ciências da Educação, defendida por Cristina Vieira na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Este trabalho de investigação, que se encontra disponível para consulta no Centro de Documentação da CIDM, intitula-se Educação e desenvolvimento do género. Os trilhos percorridos na família e dedica particular atenção à educação familiar e à influência desta sobre o desenvolvimento das diferentes dimensões do género nas crianças e jovens, contribuindo para uma melhor compreensão das implicações das diferenças sexuais para a educação que os indivíduos recebem ao longo da vida. Optando pela "realização de um estudo não experimental", a autora clarifica que o "objectivo principal foi o de estudar, não as práticas educativas, em função do género, mas, sim, as opiniões de pais e filhos a respeito das mesmas"(p.15), ou seja as opiniões sobre a educação considerada adequada para as raparigas e os rapazes.
O trabalho organiza-se em duas partes. A primeira é dedicada à discussão teórica sobre a importância da variável género no desenvolvimento individual e na educação do homem e da mulher. Após algumas reflexões de natureza histórica, são abordadas as diferentes perspectivas teóricas sobre a formação do género, os sistemas de crenças a este associadas e a possível influência da educação ministrada na família sobre os comportamentos de género. Na segunda parte são apresentadas as duas fases da investigação empírica desenvolvida: um estudo piloto que permitiu, não só aferir os instrumentos de recolha de dados, mas também averiguar o grau de aceitação deste tipo de trabalho junto dos interlocutores privilegiados – escolas, discentes e respectivos/as progenitores/as; o estudo definitivo, o qual incidiu sobre um universo de 597 indivíduos da região de Coimbra, dos quais 28% são pais, 35,2% são mães, 22,1% são filhas e 14,7% são filhos.
O estudo empírico conduziu a um conjunto de conclusões, das quais destacamos: os homens (pais e filhos) emitem opiniões mais tradicionais a respeito da educação para os papéis de género do que as mulheres (mães e filhas); numa análise comparativa inter-geracional, apesar de não terem sido verificadas diferenças estatisticamente significativas entre as respostas de pais/mães e a de filhas/filhos, observou-se, todavia, que, dos quatro grupos familiares considerados, o dos rapazes constituiu o grupo mais conservador; o cruzamento com variáveis sociodemográficas permitiu constatar que os pais e as mães residentes em meio urbano, com maior nível de escolaridade e com uma situação socioeconómica mais favorável exibem opiniões mais flexíveis sobre a educação de rapazes e de raparigas, ou seja, menos marcadas pela divisão rígida de tarefas consoante o sexo; também "os pais (pai e mãe) que desempenham uma profissão manifestaram-se menos conservadores do que os que o não fazem e as famílias (pai e mãe) onde a mãe desempenha uma função remunerada, fora de casa, mostraram-se mais liberais do que aquelas onde a mulher não tem um papel activo no mundo do trabalho" (p.463); relativamente ao universo dos filhos e filhas, embora não se tenham encontrado diferenças significativas de opinião associadas ao local de residência, o nível socioeconómico e a composição da fratria mostraram influir nas ideias dos e das adolescentes acerca da divisão das tarefas, sendo que, por exemplo, se revelaram "mais conservadores os rapazes só com irmãos, seguidos das raparigas só com irmãs"(p.464) e mais liberais as e os jovens pertencentes a fratrias compostas por irmãos de ambos os sexos; distintamente do que sucede no grupo de pais/mães, não foram detectadas diferenças expressivas entre as opiniões dos filhos/filhas que tinham uma mãe profissionalmente activa e aqueles em que isso não acontecia; a análise dos valores defendidos pelas pessoas regista que os homens atribuíram maior importância a valores centrados no indivíduo e na sua competência pessoal, enquanto que as mulheres "destacam pelo menos um valor centrado na sociedade – o mundo de paz" (p. 474) e valorizam mais as relações interpessoais. Não ficou aqui esgotada a totalidade das interessantes conclusões apresentadas por este estudo, cuja leitura se afigura obrigatória para uma melhor compreensão da temática em questão. Não podemos, porém, deixar de referir que a autora apresenta, ainda, um conjunto de reflexões sobre as implicações teóricas e práticas dos resultados desta investigação para a educação em contexto familiar ou escolar, sugerindo algumas orientações pedagógicas a ter em conta nas escolas e na formação de agente educativos, com destaque para encarregados/as de educação, e aludindo, entre outros, aos instrumentos pedagógicos produzidos pela CIDM no âmbito do projecto Coeducação.
Teresa Pinto
 
Relações Sociais de Sexo e Segregação do Emprego
Relações Sociais de Sexo e Segregação do Emprego: Uma Análise da Feminização dos Escritórios em Portugal é o título da dissertação de doutoramento em Sociologia apresentada por Virgínia Ferreira à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e disponível para consulta no Centro de Documentação da CIDM. Assumindo-se como uma pesquisa de orientação transdisciplinar, este estudo define como campo de pesquisa um sector pouco estudado em Portugal, o dos Escritórios, no qual trabalho e emprego parecem oferecer condições ideais para a inserção das mulheres na actividade económica, apesar de ser dos sectores mais atingidos pela informatização. A autora pretende, como preocupação de fundo, esclarecer as relações entre desqualificação, feminização e informatização do trabalho e do emprego, procurando "redefinir os termos em que as oportunidades de trabalho e de emprego para as mulheres e para os homens se estruturam nos escritórios e como é que umas e outros as percepcionam, face às profundas transformações associadas à revolução tecnológica em curso" (p.11).
O trabalho organiza-se em três partes, sendo as duas primeiras de discussão teórica: definição dos sexos enquanto colectivos sociais e, neste processo, o lugar conferido à maternidade; principais correntes sociológicas e económicas que têm procurado analisar as posições que "as mulheres e os homens ocupam na divisão sexual do trabalho e na segregação sexual dos mercados de trabalho nos escritórios" (p.20). A terceira parte apresenta os resultados do estudo empírico, o qual incidiu sobre o processo de crescimento, feminização e informatização dos escritórios em Portugal, no período compreendido entre 1940 e 1998, analisando factores determinantes da maior ou menor facilidade de adaptação ao trabalho com as tecnologias de informação e comunicação, como sendo "a situação do mercado de emprego, o nível de desenvolvimento tecnológico e sócio-económico e as normas referentes ao trabalho e às competências técnicas das mulheres e dos homens" (p.650). Os dois primeiros factores foram abordados com base em informação quantitativa, enquanto que o terceiro foi tratado a partir de informação de carácter qualitativo, resultante de entrevistas, a partir da qual foi analisado "o modo como os processos sociais que estruturam as relações sociais de sexo são apresentadas ao nível dos discursos de mulheres e de homens que trabalham, ou aspiram a trabalhar, em escritórios" (p.895).
Na impossibilidade de referir neste texto toda a mais valia desta imensa investigação, não quisemos, porém deixar de apresentar algumas das suas conclusões. O estudo mostrou que, em comparação com o emprego global, o emprego nos escritórios tem acusado um maior crescimento – "entre 1940 e 1991, o número de empregados de escritório aumentou em Portugal mais de 700%" (p.659) –, tem-se "complexificado e qualificado em maior grau e tem-se feminizado mais rapidamente" (p.727). Especialmente desde 1991, o computador tornou-se símbolo do novo local de trabalho e a sua utilização já não distingue categorias profissionais no escritório. Saber como utilizar a informática passou a ser um requisito básico de acesso ao emprego, todavia, a análise estatística "demonstrou que os efeitos da segregação do emprego nos escritórios fazem com que as mulheres sejam integradas por via das qualificações, numa lógica credencialista (das habilitações escolares), mas, ao mesmo tempo, sejam mantidas em lugares subalternos (…) numa lógica de subversão desse mesmo credencialismo" (p.1035). Assim, se as mulheres surgem como as principais beneficiárias do crescimento do emprego nos escritórios, apesar da intensificação da informatização, as crescentes oportunidades de emprego que se lhes oferecem continuam especialmente limitadas a profissões e categorias profissionais já muito feminizadas. Assiste-se a um processo claro de guetização no seio de algumas das profissões nos escritórios, resultante da especialização das mulheres em algumas das funções que as compõem, mesmo em categorias mais qualificadas, como é o caso dos/as contabilistas, situação que a autora atribui ao processo de rotinização que o trabalho contabilístico conheceu com a informatização. A análise revela também a ressegregação da profissão das/os escriturárias/os, caracterizada por acentuada sobrefeminização, precarização do emprego e degradação do estatuto remuneratório. Deste modo, "os homens emergem, claramente, como principais beneficiários da complexificação das estruturas do emprego e da divisão sexual e técnica do trabalho nos escritórios" (p.888).
Sublinhe-se, todavia, que sendo o escritório um espaço de trabalho sexualmente segregado, as razões desta segregação não podem ser atribuídas às características objectivas das mulheres que nelas trabalham, pois estas não são menos qualificadas que os seus colegas de trabalho do sexo masculino. Verificou?se, assim, que uma vez empregadas, ao contrário do que sucede com os homens, não lhes são disponibilizadas pelas próprias organizações meios para desenvolver o seu domínio das TIC, pelo que são obrigadas a recorrer mais frequentemente aos seus próprios meios para obter as novas competências em informática. Concomitantemente, apesar de as mulheres se incluírem cada vez mais na categoria de utilizadoras e consumidoras de TIC, constatou-se o recuo das taxas de feminização de algumas das profissões a elas associadas e a sua presença permanece diminuta nas profissões ligadas ao campo informático. "A análise das auto e hetero-representações de ambos os sexos põe em evidência que às mulheres são negadas competências no campo da informática, excepção feita para o trabalho minucioso de introduzir dados"(p.1019) e, no entender da autora, é a valorização da família (e consequente prioridade conferida à articulação da actividade profissional com as responsabilidades familiares) que alimenta a ambivalência do estereótipo feminino na sua dimensão profissional. Embora se tenha verificado que a informatização não excluiu as mulheres do emprego, a informática em si não se constituiu num novo campo de oportunidades para as mulheres, pois estas não lograram conquistar espaços novos de qualificação de forma significativa.
A autora conclui que "o carácter inovador das TIC não funcionou como suporte à ruptura com as linhas convencionais de diferenciação entre os sexos [e] (…) o muito que as mulheres têm feito para mudar as suas condições de integração no mercado de trabalho, adquirindo qualificações e habilitações escolares e dando maior continuidade à sua actividade profissional, não é suficiente para mudar as estruturas sociais." (p.1038-39) Sublinhe-se, para além do contributo de natureza empírica desta dissertação, o fecundo debate teórico que proporciona a quem investiga na área dos estudos sobre as mulheres. A autora deixa, ainda, um alerta no sentido da imprescindibilidade de se ter em conta o carácter não-negociável que as mulheres atribuem à maternidade na configuração das políticas de combate às desigualdades nas relações sociais de sexo.
Teresa Pinto
 
DESigualdade de género nos manuais escolares: até quando?
As representações de género em manuais escolares do ensino básico constituem objecto da dissertação apresentada por Paula Bento Soares do Sacramento Pereira, no âmbito do mestrado em Linguística Aplicada, na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Com o título Modelados pelo discurso. Uma análise crítica das representações de género em manuais escolares do 1º ciclo, a pesquisa incide sobre seis manuais, das disciplinas de Língua Portuguesa e de Estudo do Meio, destinados ao 2º ano de escolaridade, pertencentes a três editoras e adoptados em 2000/2001.
Do ponto de vista teórico, a autora parte do papel social e “socializante” da linguagem e das práticas discursivas, através das quais aprendemos a dizer e a pensar o que somos, enquanto indivíduos e enquanto elementos de uma mesmo colectividade, ou seja, construímos a nossa identidade individual, internalizamos os traços que nos definem como mulheres e como homens e os papéis sociais que nos cabem, de acordo com esses mesmos traços. A autora sublinha, assim, a força ideológica do que dizemos e escrevemos e o facto de serem as práticas discursivas uma forma de transmissão de valores e de crenças e, portanto, um poderoso meio, quer de reprodução e de manutenção de (pre)conceitos, quer de questionamento e de mudança dos estereótipos sociais, em particular daqueles que se prendem com a noção de pessoa, mulher ou homem, e com o que se considera que devem ser as relações sociais entre homens e mulheres.
Procedendo primeiramente a uma análise global quantitativa dos seis manuais, ao nível da imagem e do texto escrito, a autora constata a transmissão de modelos estereotipados de mulheres e de homens, através das actividades e dos traços físicos e psicológicos associados a cada um dos sexos. Num segundo momento, Paula Pereira realiza a análise qualitativa de doze textos dos manuais de Língua Portuguesa detectando que os processos linguísticos (re)produzem uma ideologia que, ao discriminar, legitima os estereótipos de género e a desigualdade entre mulheres e homens.
Através da análise das ilustrações e dos textos, a autora averigua, em primeiro lugar, quais os modelos de identidade social e sexual transmitidos pelos manuais analisados e o modo como as linguagens verbal e visual contribuem para manter ou mudar os estereótipos associados à feminilidade e à masculinidade. As conclusões da autora confirmam a permanência de um sexismo tanto explícito, através de representações desfasadas da realidade social actual, como implícito, mediante estereótipos do que é ser mulher ou homem, para o qual contribuem factores como a identificação das profissões no masculino, a ausência dos homens no mundo doméstico e o uso sistemático do masculino genérico. O sexismo latente dos manuais escolares passa, em grande medida, pelos efeitos da utilização do masculino genérico “já que a sua interpretação imediata é a de masculino específico” (p. 132), como lembra a autora.
Nas ilustrações, as figuras de homens surgem em número muito superior ao das mulheres, sendo eles que, do ponto de vista visual, representam a humanidade. Simultaneamente, tanto nas ilustrações como nos textos, são atribuídas a mulheres e a homens características físicas e psicológicas que seguem de muito perto os modelos tradicionais de feminilidade e de masculinidade: eles são fortes, dinâmicos, performativos e revelam faculdades intelectuais; elas são belas, frágeis, afectivas e revelam competências relacionais. A mesma assimetria de género marca as referências às profissões que surgem protagonizadas predominantemente por homens, aos quais se associa igualmente a diversidade profissional.
Em contrapartida, a esfera doméstica e familiar, da qual os homens estão ausentes, é identificada com o sexo feminino e nela se verifica o exercício do poder de decisão das mulheres. Somente na esfera familiar e doméstica as mulheres surgem como agentes de acção e os homens com um papel passivo e receptor, o que significa a sua desresponsabilização no espaço doméstico.
Na sequência da revisão da literatura sobre a igualdade de género nos manuais escolares, na qual se cruzam os resultados dos estudos nacionais e dos trabalhos realizados a nível internacional, a autora conclui que os dados obtidos situam os manuais analisados na mesma linha daqueles que foram estudados em Portugal nas últimas três décadas, continuando a veicular a ideia de uma divisão dicotómica entre homens e mulheres relativamente àquilo que os/as caracteriza enquanto pessoas e às suas esferas de intervenção: a eles pertence a macro esfera do social e a elas pertence a micro esfera da família. Como refere a autora “a rápida absorção destes modelos de conduta pelas crianças leva?as depois a rejeitar (principalmente no caso dos rapazes, que se sentem empossados de uma posição privilegiada) as tarefas que consideram próprias do outro sexo” (p.133).
Sublinhe?se ainda que a autora conclui neste estudo haver uma clara discrepância, no sistema escolar, entre o discurso legislativo e institucional, que introduziu algumas mudanças de ordem política em matéria de igualdade, e os materiais pedagógicos, nomeadamente os manuais escolares. Nem as orientações nacionais e internacionais sobre a temática da igualdade entre mulheres e homens e a sua promoção na área da educação, nem as orientações do Ministério da Educação quanto a manuais escolares, conduziram a resultados “concretos e visíveis” nos materiais pedagógicos destinados à escola, em particular nos manuais escolares. A mesma contradição ocorre entre as intenções do currículo e os programas das disciplinas que o constituem, nos quais “as referências ao género são escassas, vagas e demasiado teóricas” (p. 142) como realça a autora.
Quanto a propostas que visem abolir o sexismo dos manuais escolares e promover a igualdade de género nos materiais e nas práticas pedagógicas, Paula Pereira sublinha a necessidade de uma alteração de atitudes a vários níveis, mencionando, entre outras linhas de acção, a formação de docentes (com vista ao desenvolvimento de uma consciência crítica na área da igualdade de género); a integração da análise crítica dos discursos na produção de manuais e a necessidade de incluir nos critérios de avaliação e selecção dos manuais o equilíbrio de género.
O trabalho encontra?se disponível no Centro de Documentação da CIDM.
Teresa Alvarez
 
Género e Tecnologia
A utilização das TIC por raparigas e por rapazes na escola e na família
O Ministério da Educação, através do Departamento de Avaliação, Prospectiva e Planeamento (DAPP), editou recentemente, com o título As Tecnologias de Informação e Comunicação: utilização pelos alunos, os resultados de um estudo, coordenado por Jacinta Paiva e realizado no âmbito do Programa Nónio Século XXI, sobre o recurso ao equipamento informático por crianças e jovens em idade escolar. A partir de um questionário dirigido a discentes dos 4º, 6º, 8º, 9º e 11º anos de escolaridade, dos ensinos público e privado, o estudo apresenta os dados relativos às respostas de cerca 540.000 discentes sobre o que elas e eles consideram ser as suas práticas de utilização do equipamento informático em dois contextos educativos: em casa e na escola. As principais questões incidiram sobre o tipo de equipamento a que alunos e alunas têm acesso; as principais actividades que realizam e aquelas de que mais gostam; o tempo durante o qual recorrem a este equipamento e as formas de iniciação e aprendizagem da sua utilização. Tratando?se de um estudo que, como refere a sua autora, se reporta a “práticas declaradas e não observadas”, os dados apresentados, referentes ao ano lectivo de 2002-2003, integram o cruzamento das respostas de cada questão com três variáveis: o sexo, a idade/ano de escolaridade e o índice de desenvolvimento social de cada respondente. De assinalar o peso equitativo de raparigas e de rapazes nas respostas obtidas, facto pertinente para a sua leitura e interpretação numa perspectiva de género.
Em termos globais, se a maioria das/os respondentes tem computador em casa, o equipamento que pertence individualmente a cada discente é, em primeiro lugar, o telemóvel, seguindo-se o computador e a consola indicados por mais de metade de alunas/os. É em relação à consola que se constatam as diferenças significativas entre os dois sexos. Das crianças e jovens que a possuem, cerca de dois terços são rapazes e apenas um terço são raparigas, verificando?se igualmente um maior predomínio masculino num outro tipo de equipamento de diversão: o gameboy.
O estudo realça, pois, o equipamento ligado aos jogos de diversão como tendo um peso dominante junto dos rapazes. Este aspecto relaciona-se com as actividades que raparigas e rapazes realizam com o computador, em casa. Se “jogar” é, juntamente com “escrever textos”, a actividade que mais ocupa crianças e jovens na esfera familiar, do conjunto que se dedica a jogos de diversão, mais de metade são rapazes e apenas cerca de um terço são raparigas. Um aspecto merece destaque: a actividade “jogar” não apresenta diferenças muito significativas entre os dois sexos nas crianças do 1º ciclo, mas vai-se reforçando como uma actividade predominantemente masculina ao longo dos ensinos básico e secundário. No 11º ano, 77% dos rapazes e apenas 38% das raparigas dedicam?se a esta actividade. Parece, pois, que os rapazes, à medida que crescem, vão consolidando a utilização do computador para jogos de diversão, contrariamente àquilo que sucede com as raparigas.
Quando passamos à esfera da escola, o estudo mostra que não há diferenças substanciais entre raparigas e rapazes na troca de emails e na navegação na internet. Contudo, os dados apontam para o facto das raparigas recorrerem mais ao computador para “escrever textos”, associando também a elas uma maior utilização no chat e nos jogos educativos. Uma vez mais, evidencia?se uma clara associação do “jogar” aos rapazes e, no caso dos anos de escolaridade mais avançados, do recurso ao power point e ao download. Sendo irrelevante a percentagem de discentes que recorrem ao computador para elaboração de páginas web, tratamento de imagem e programação, estas actividades são realizadas geralmente por rapazes e a última é exclusivamente masculina.
A auto?aprendizagem é a principal forma de iniciação à utilização do computador por parte dos rapazes. As raparigas, para além da auto?aprendizagem, recorrem também a familiares e a docentes. Aprender com pares (amigos/colegas) parece ser utilizado com a mesma frequência pelos dois sexos. Parece-nos pois que os rapazes adoptam estratégias de aprendizagem consonantes com o modelo de masculinidade assente na autonomia e individualismo e as raparigas diversificam as suas formas de aprendizagem valorizando a cooperação com o outro e o relacionamento pessoal e social como veículo de aprendizagem. Também aqui a relação com a escola através da pessoa do/a professor/a está mais presente nelas do que neles.
Quanto ao número de horas por semana que alunos e alunas ocupam com actividades ligadas ao equipamento informático, não há diferenças entre os dois sexos, excepto nos períodos mais longos relativos a mais de 10 horas por semana. São os rapazes que, em todo o tipo de actividades (escrever texto, jogar, navegar na Internet) surgem associados aos períodos de utilização mais longos. Este aspecto revela?se particularmente pertinente se tivermos em conta os resultados dos estudos sobre a distribuição de tarefas domésticas e o uso do tempo por parte dos dois sexos no espaço familiar, os quais apontam para mais tempo “livre”, ou de lazer, para o sexo masculino, tanto entre adultos como entre crianças e jovens.
Por último, não podemos deixar de realçar que os dados apresentados por este estudo parecem apontar para o facto das TIC reforçarem as actividades lúdicas junto dos rapazes, através de jogos de competição solitários ou com um/dois parceiros, e sublinharem as actividades de relação com o outro e com a escola nas raparigas, mediante a conversa (chat) e a escrita (nomeadamente para os trabalhos escolares).
Teresa Alvarez